Blog Rômulo Lima

Escassez fez com que plantações se perdessem e faltasse água para beber.
Em Cabrobó, a água do carro-pipa é vendida por R$ 60.
A madeira queima sob o fogão a lenha de uma casa simples, na Fazenda Umbuzeiro, localizada a cerca de 15 quilômetros do município de Cabrobó, no Sertão de Pernambuco. Na panela de barro, a agricultora Francisca Maria da Silva, de 52 anos, cozinha meio quilo de feijão, que será misturado com arroz. O almoço, um prato tipicamente nordestino conhecido como ‘baião’, é pouco para servir as cinco pessoas da família. Mas, alimentar todos não é o que preocupa a produtora rural. O principal problema enfrentado por Francisca da Silva e demais moradores da região é a seca que tanto castiga o Sertão.
O projeto de Integração do Rio São Francisco, que tem a proposta de levar água para cerca de 12 milhões de pessoas em 4 estados, poderia amenizar o problema. No entanto, a obra, que já está com três anos de atraso, sofreu um novo adiamento e, agora, deverá ser concluída só em 2017.
Mas, os moradores da região de Cabrobó dizem que, mesmo com a obra, a falta de chuva deixaria baixo o leito do rio, afetando o abastecimento das cidades. A Agência Nacional de Águas (ANA) contesta e diz que o projeto pode captar 26,4 metros cúbicos por segundo, mesmo em períodos muito secos, o que representa 1,4% da vazão média do rio.
Enquanto isso, a água utilizada por Francisca para fazer o almoço e demais trabalhos domésticos vem de uma cisterna, construída ao lado da casa. O reservatório é abastecido mensalmente por um carro pipa, pago pelo governo estadual. No entanto, a quantidade também é pouca. A água chegou há mais de 15 dias e não deve durar até o final do mês. Para lavar as louças e tomar banho, é tudo regrado. Antes é preciso colocar em um balde, porque não tem água encanada.
Para Francisca, natural de Cabrobó, essa cena não é atípica. Desde cedo ela convive com a seca. Foi nesse cenário que criou os sete filhos, que hoje não moram mais com ela. Após a morte da mãe, precisou mudar-se para a Fazenda Umbuzeiro para cuidar do pai, Ângelo Antônio da Silva, um aposentado de 86 anos e três sobrinhas.
Para a agricultora, a situação ficou ainda mais difícil. “A seca aqui está grande. Depois que o riacho secou, você não vê uma gota de água. Os bichos estão morrendo de fome e de sede, porque não tem água, nem pasto”, conta.
Francisca se refere às 20 cabras e bodes que o pai, Ângelo Antônio, insiste em criar. A água da cisterna, além de ser utilizada para beber, cozinhar, lavar roupa e tomar banho, também mata a sede dos animais. “É sofrido. As cabras não tem água para beber. Só posso colocar uma vez por dia. Eles bebem hoje e, depois, só amanhã. Porque, se não, quem fica com sede somos nós. Muita gente que tinha bicho aqui teve que vender, mas tem gente que não quer comprar porque estão magros demais. Muita criação por aí está morrendo. O pior é que meu pai não tem condições de criar. Não tem dinheiro para comprar ração”, relata Francisca.
Toda a renda da família vem da aposentadoria do pai e dos trabalhos que ela ganha como agricultora trabalhando para outras pessoas em plantações de cebola, milho e feijão. O único cultivo que foi desenvolvido na propriedade rural, uma plantação de milho, secou por falta de água e toda a produção foi perdida.
E quando o carro-pipa não chega, a situação é ainda pior. Os moradores precisam tirar dinheiro do próprio bolso. “Nunca vi uma seca tão triste como essa. A última vez que choveu bem foi em 2004. Quando não tem água, a gente dá um jeito de comprar porque não vamos morrer de sede”, disse.
Com a esperança de dias melhores, Francisca diz que só a chuva amenizaria as condições da população e destaca que não acredita nos benefícios da obra da Integração do Rio São Francisco. “Se chovesse, eu dizia que tinha como melhorar. Agora, sem chuva, eu digo que não melhora nada, porque o rio está seco. Se tivesse água no rio, ia ser bacana essa obra, mas não tem. Como é que vai soltar água aqui?”, questiona.
Situação que se repete
A poucos metros da casa de Francisca, quem também passa por dificuldades é a agricultora Maria Lucineide Parente, de 55 anos. A produtora rural trabalha com o marido, Expedito Vieira de Brito, de 67 anos, que tem uma plantação de cebola, em uma área próxima ao rio. A água na cisterna foi comprada. “Uma seca como essa eu vi faz uns 30 anos. Agora mesmo, o pipa não veio e eu tive que comprar uma carrada de água que custou R$ 60”, disse.
Na casa da produtora, a cisterna é usada apenas para trabalhos domésticos, cozinhar, beber e tomar banho. O pouco que tem, não sobra mais nem para os animais. “Até lavar roupa, antes eu lavava aqui, mas estou indo lavar no ‘Cigano’, onde tem água. E, para o gado beber, tem um poço, a gente faz uma cacimba e pega o resto de água que tem. É a única forma de não deixar os bichos morrendo de sede”, conta Maria Lucineide.
Projetos irrigados também sofrem com a seca
Os moradores dos projetos de irrigação que usam a água do Rio São Francisco nas plantações também sofrem com a seca. O podador Pedro Joaquim de Oliveira, de 56 anos, mora em um desses projetos, no Brígida. Para ele, o problema está em todos os lugares.
“Está ruim. Onde a gente mora tem um pouquinho de água e dá para ir levando. Mas o pessoal da região está sofrendo demais. Não sei nem se essa transposição vai ser boa para a gente, porque o rio está judiado demais. Tem que chover. Está tudo seco. Falta água e comida. Os bichos tudo berrando de fome e sede”, destaca o podador.
Enquanto a situação não muda, a agricultora Francisca da Silva procura formas de amenizar tanto sofrimento. Com saudade dos filhos, ela espalhou fotos da família por toda a casa, tentando diminuir a dor causada pela distância. “A vontade é ir embora daqui, ficar perto dos meus filhos. Mas, em todo lugar está assim. Não adianta sair. Dilma quer tirar a água do Rio São Francisco e vai morrer todo mundo de sede e fome”, desabafa.
A produtora rural Maria Lucineide Parente fala em fé.  “Tem que ter fé em Deus e acreditar que vai chover. Pedir a Deus para mandar chuva para esse nosso Sertão. Tem que ter compaixão e mandar chuva, porque a cada dia que passa a seca fica pior”, argumenta.  Ela diz que é contra a obra da Integração do Rio São Francisco. “Eu acho, e todo mundo está achando, que tirar essa água vai ficar ainda pior para nós, porque eu acho que o rio vai secar mais. Ele já está muito seco, mas querem tirar, vamos fazer o que?”, argumenta.
Revitalização
Contrariando o posicionamento dos moradores que não são a favor da transposição, um Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) do Ministério da Integração Nacional (MI), diz que foram realizados diversos estudos e avaliações técnicas em conformidade com as diretrizes do Plano Decenal da Bacia Hidrográfica da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, concluído pela ANA.
Ferramentas de simulação utilizadas pela ANA indicaram que o projeto pode captar 26,4 metros cúbicos por segundo, mesmo em períodos muito secos, o que representa 1,4% da vazão média do rio. Já na cheia, a captação pode chegar a 127 metros cúbicos por segundo sem prejudicar o rio.
Ainda de acordo com o Ministério, por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), já foram investidos uma quantia de R$ 1,7 bilhão em ações de revitalização no rio. O valor total deve chegar a R$ 2,5 bilhões.
Transposição
O projeto de Integração do Rio São Francisco irá beneficiar a população de 390 municípios nos Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. A obra é composta por 477 quilômetros de extensão, organizados em dois eixos de transferência de água. O Norte, com 260 km e o Leste com 217 km. Dos canais, a água seguirá para reservatórios que irão abastecer as comunidades. Nas proximidades desses eixos outras 296 localidades também devem ser contempladas com sistemas simplificados de distribuição de água. O Governo Federal estima que até a conclusão do projeto serão investidos R$ 8,2 bilhões.
Taisa Alencar  
Do G1 Petrolina

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