Blog Rômulo Lima

O que o repórter Leonardo Vasconcelos e o repórter fotógráfico Ezequiel Quirino viram agora em Bodocó foi como se estivessem testemunhando a concretização das antevisões de Antônio Conselheiro.
O que se viu nos últimos dias foi um pequeno episódio possível de se atribuir a Conselheiro, mas o contraste é extremo e assombra pelo volume de chuva em poucas horas. | Foto: Rômulo Lima
Tomando-se Bodocó como epicentro do aguaceiro que caiu no Sertão de Pernambuco, a recorrência ao contraste extremo é inevitável: foi lá que a falta d’água levou a um dos acontecimentos mais dramáticos da seca nos últimos anos em nosso Estado, quando um agricultor foi à sede da Compesa para reclamar a falta d’água e foi assassinado com cinco tiros. No campo, os agricultores desesperados informavam que a segunda bacia leiteira de PE estava em processo de falência, um desastre que persistiu até ser reconhecido, em janeiro do ano passado, que estávamos passando pela maior seca em 100 anos. Não apenas Pernambuco, mas todo Nordeste.

O que o repórter Leonardo Vasconcelos e o repórter fotógráfico Ezequiel Quirino viram agora em Bodocó foi como se estivessem testemunhando a concretização das antevisões de Antônio Conselheiro – aquele de Canudos, que conhecia como poucos de sertão e sertanejos e avisou que o sertão ia virar mar. O que se viu nos últimos dias foi um pequeno episódio possível de se atribuir a Conselheiro, mas o contraste é extremo e assombra pelo volume de chuva em poucas horas. Numa pequena parte previsível, porque desde janeiro a Agência Pernambucana de Águas e Clima já anunciava aqui e ali chuvas com intensidade moderada a forte no Sertão do Estado. O contraponto de um mapa meteorológico de apenas um ano atrás, quando o governo decretou estado de emergência em 56 dos 185 municípios pernambucanos e lá estavam municípios como Bodocó e muitos do Pajeú e Moxotó.

Os relatos produzidos pelo aguaceiro que chegou a isolar 90% dos acessos à zona rural de Bodocó reproduzem a fragilidade dos pequenos produtores rurais sertanejos diante de plantações arruinadas e gado morto pelas enxurradas, aquele mesmo que sempre é mostrado como símbolo mais trágico dos tempos de seca. Um dos lados mais complexos desse cenário é que ele não pode ser atribuído a ninguém, nenhuma autoridade pode ser responsabilizada, como é possível fazer pela ausência dela no combate à seca, por exemplo. Agora se trata de caso fortuito ou de força maior, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir, como diz o artigo 393 do Código Civil brasileiro.

Contudo, se não havia como evitar ou impedir os estragos provocados pelo temporal, é dever de todos os agentes públicos cuidarem da recuperação, da restauração das condições anteriores ao caso fortuito, inevitável, restabelecendo as condições básicas de sobrevivência das comunidades rurais e urbanas atingidas, a começar pelos meios de acesso, as estradas de barro e até as rodovias que em algumas áreas sertanejas já estavam se transformando em pistas de obstáculos, como é comum acontecer, por exemplo, entre Cruzeiro do Nordeste, Sertânia, Iguaracy e Afogados da Ingazeira. Significa dizer que os governantes não poderiam impedir o temporal nas áreas sertanejas mas devem estar presentes agora, mais do que nunca.

JC Online

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